CURITIBA, PR — Quando Antônio Carlos Ribeiro, 67 anos, se aposentou do cargo de engenheiro civil em 2023, ele e a esposa Marta, 64, tinham um sonho simples: conhecer a Europa pelo menos uma vez na vida. Com uma aposentadoria conjunta de R$ 7.200 por mês, a ideia parecia impossível. Passagens para Portugal, o destino mais "acessível", custavam mais de R$ 4.500 por pessoa na época.
"A gente já tinha se conformado. Ia usar o dinheiro pra reformar o banheiro e pronto", conta Dona Marta, servindo café na varanda do apartamento no bairro Água Verde. "Até que minha sobrinha, que trabalha com tecnologia, mostrou uma coisa no celular dela que mudou tudo."
O que a sobrinha mostrou foi um sistema de monitoramento de passagens aéreas que, segundo o casal, transformou completamente a forma como eles enxergam viagens. Desde então, Antônio e Marta já visitaram 14 países em menos de dois anos — e gastam, em média, menos de R$ 400 por mês com passagens aéreas.
Para efeito de comparação, o brasileiro médio gasta entre R$ 350 e R$ 500 por mês com aplicativos de transporte como Uber e 99, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas publicada em 2025.
O mapa na parede que viralizou
A história do casal ganhou repercussão depois que a neta de 22 anos postou no TikTok uma foto do mapa-múndi que Antônio colou na parede da sala, com alfinetes vermelhos marcando cada destino visitado. O vídeo acumulou mais de 2,3 milhões de visualizações em cinco dias.
"Todo mundo nos comentários perguntando se a gente era rico. Eu morri de rir", diz Antônio, mostrando o mapa com orgulho. "Rico coisa nenhuma. A gente é esperto."
A lista de destinos impressiona: Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Turquia, Egito, Marrocos, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, México, Estados Unidos e Canadá. "Não fomos pra todos de uma vez, claro", explica Marta. "Mas quando aparece passagem boa, a gente não pensa duas vezes. Mala sempre pronta."
Como funciona o "método Ribeiro"
Antônio reluta em chamar de "método", mas aceita o apelido que a neta inventou. Na prática, o que o casal faz é simples — mas depende de uma ferramenta que a maioria dos brasileiros desconhece.
"As companhias aéreas mudam o preço das passagens centenas de vezes por dia. Centenas. A maioria das pessoas só vê o preço caro porque pesquisa no momento errado. O sistema que a gente usa monitora essas mudanças 24 horas e avisa quando o preço despenca. Simples assim."
De fato, conforme já reportamos em nossa investigação sobre passagens para Europa por R$ 700, as companhias aéreas utilizam algoritmos de precificação dinâmica que ajustam valores com base em dezenas de variáveis: dia da semana, horário da pesquisa, demanda, sazonalidade, até o tipo de dispositivo usado na busca.
Isso cria o que especialistas chamam de "janelas de oportunidade" — momentos em que os preços caem drasticamente, às vezes por apenas algumas horas, antes de voltarem ao valor normal. O problema é que, sem monitoramento constante, é praticamente impossível flagrar essas quedas.
A passagem para Lisboa que custou R$ 412
Antônio puxa o celular e mostra um print guardado com carinho: uma passagem São Paulo–Lisboa, ida e volta, por R$ 412,00 por pessoa, comprada em março de 2024. "O preço normal naquele dia era R$ 3.800. A promoção durou menos de 4 horas. Se eu não tivesse recebido o alerta, jamais teria visto."
Essa é a dinâmica que o casal repete sistematicamente. Eles configuram alertas para os destinos que desejam e esperam. "Às vezes demora uma semana, às vezes um mês. Mas sempre aparece", garante Marta.
A estratégia lembra o que foi revelado na nossa matéria sobre os segredos sombrios das companhias aéreas: as empresas preferem vender assentos a preço muito baixo do que deixá-los vazios, mas fazem de tudo para que essas ofertas não cheguem ao público geral.
O impacto na renda fixa do casal
Quando questionados sobre como encaixam as viagens no orçamento apertado da aposentadoria, Antônio e Marta são transparentes. "A passagem é só uma parte da viagem, claro. Tem hospedagem, alimentação, passeio. Mas quando a passagem sai por R$ 400 em vez de R$ 4.000, sobra muito mais pra todo o resto."
O casal adota uma estratégia complementar: usam hospedagens alternativas (Airbnb em bairros residenciais, hostels com quartos privativos para casais), cozinham em casa a maioria das refeições, e priorizam experiências gratuitas — caminhadas, museus com entrada franca, praças e mercados locais.
Planilha do casal Ribeiro (média por viagem internacional de 10 dias):
✈️ Passagens aéreas (2 pessoas): R$ 800 a R$ 1.200
🏠 Hospedagem: R$ 1.500 a R$ 2.500
🍽️ Alimentação: R$ 1.000 a R$ 1.800
🎫 Passeios e transporte local: R$ 500 a R$ 800
Total: R$ 3.800 a R$ 6.300 para o casal (10 dias na Europa)
"Antes do sistema, só a passagem já custava mais do que a viagem inteira custa agora", resume Antônio. "A gente faz 4, 5 viagens internacionais por ano. Parece mentira, mas é matemática."
A reação da família — e das agências
Nem todos ficaram felizes com as descobertas do casal. "Uma agência de viagens aqui do bairro ficou meio chateada comigo", ri Antônio. "A dona me disse que eu estava 'quebrando o mercado'. Eu disse: quebrando nada, estou é viajando."
A filha do casal, Patrícia, 42, conta que no começo achava que os pais estavam caindo em golpe. "Eu falava: pai, isso não existe, cuidado. Aí ele me mandou o comprovante da passagem pra Grécia. Ida e volta, R$ 680 por pessoa. Eu pedi pra ele me ensinar no mesmo dia."
Hoje, Patrícia e o marido também usam o mesmo sistema. "Levamos as crianças pra Disney por um preço que eu não acreditava ser possível. Os meus filhos acham que o avô é um gênio", conta, rindo.
Essa democratização do acesso a passagens baratas é algo que já discutimos ao analisar como a elite brasileira viaja por preços absurdamente baixos. O que antes era privilégio de quem tinha acesso a sistemas profissionais de turismo, agora está disponível para qualquer pessoa com um celular e internet.
O sistema que o casal usa
Após muita insistência da nossa reportagem, Antônio revelou o nome da ferramenta que transformou a vida do casal: o Sistema GPS de Passagens.
"GPS de Passagens", explica ele, "porque funciona como um GPS mesmo. Você coloca o destino e ele te mostra o melhor caminho — só que em vez de rota, ele mostra o melhor preço. E fica monitorando 24 horas."
Segundo informações do próprio sistema, o GPS de Passagens funciona assim:
- Monitora milhares de rotas e companhias aéreas simultaneamente
- Identifica quedas bruscas de preço em tempo real
- Envia alertas automáticos quando encontra oportunidades
- Inclui rotas com conexão inteligente que reduzem o preço drasticamente
- Funciona para destinos nacionais e internacionais
"O mais bonito é que não precisa entender de tecnologia", acrescenta Marta. "Eu mal sei mexer no WhatsApp direito e consigo usar. Aparece o alerta, clica, compra. Pronto."
Os próximos destinos
Na parede da sala, ao lado do mapa com os 14 alfinetes, há uma lista escrita à mão com os próximos sonhos: Japão, Tailândia, Nova Zelândia e Islândia. "Se depender do sistema, chego lá antes dos 70", brinca Antônio.
Dona Marta é mais pragmática: "Meu próximo é o Japão. Já configurei o alerta. Quando a passagem cair, eu vou saber antes de todo mundo. É só questão de tempo."
Quando perguntamos se o casal tem algum conselho para outros aposentados que sonham em viajar, Antônio não hesita:
"Não deixa pra depois. A gente passou a vida inteira trabalhando, criando filho, pagando conta. A aposentadoria é o momento. Mas tem que ser esperto. Não paga preço cheio em passagem nunca mais. Existe ferramenta pra isso. Usa."
A reportagem tentou contato com três grandes companhias aéreas para comentar sobre as variações de preço mencionadas na matéria. GOL e LATAM não responderam até o fechamento desta edição. A Azul disse, em nota, que "os preços são definidos por algoritmos de oferta e demanda e podem variar a qualquer momento".